quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Livros, televisão, smartphones e o desenvolvimento da linguagem



Pesquisadores afirmam que ver televisão ou brincar com aplicativos de smartphones não tem nenhum efeito sobre o desenvolvimento da linguagem de crianças - desde que os pais passem tempo lendo para elas.

Um estudo publicado no Journal of Children and Media concluiu que quando pais ou cuidadores lêem para crianças pequenas a exposição das crianças a televisão ou dispositivos touchscreen não afeta o tamanho do seu vocabulário.

Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Salford e do Centro Internacional de Linguagem e Desenvolvimento Cognitivo da Universidade de Lancaster usou questionários on-line para obter dados de 131 pais de crianças entre 6 e 36 meses de idade. Os pais receberam uma série de perguntas sobre a quantidade de tempo que em um dia típico seus filhos passavam assistindo TV, usando dispositivos como telefones ou tablets inteligentes ou lendo histórias. Eles também foram convidados a completar o inventário de desenvolvimento comunicativo do Reino Unido (CDI) - uma lista detalhada de palavras de diferentes categorias que seus filhos podiam dizer e entender. Das famílias pesquisadas, 99% liam diariamente para as crianças, 82% assistiam a televisão e 49% usavam dispositivos móveis de tela sensível ao toque.

Os pesquisadores encontraram uma relação positiva entre a quantidade de tempo dedicada à leitura e o tamanho do vocabulário das crianças, mas não entre o tempo gasto assistindo televisão ou usando dispositivos móveis e o tamanho do vocabulário.

Segundo um dos pesquisadores, este estudo confirma que ler um livro para uma criança pequena é uma das maneiras mais importantes de apoiar a aprendizagem de línguas. Apesar da forma como nos comunicamos estar mudando com a nova mídia, ainda não há ferramenta melhor do que ler livros juntos para promover a comunicação infantil. 

Os resultados do estudo mostraram que o tamanho do vocabulário das crianças não foi afetado pelo tempo em frente aos dispositivos móveis porque os pais ainda passavam tempo lendo para elas. A amostra analisada era constituída por famílias altamente educadas e para pesquisar esta questão de forma mais ampla os pesquisadores dizem que precisam estudar um grupo muito maior de famílias.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

No Brasil, colônias de imigrantes preservam idiomas e tradições quase perdidos nos países de origem



Em novembro de 2010 publiquei o post “Bilinguismo – De volta ao futuro”, no qual descrevo a experiência bilíngue de meu pai, que cresceu numa colônia polonesa no Paraná, onde se falava apenas polonês. Os fundadores da colônia tinham saído da Europa no início do século passado e não tinham mais tido contato com seu país de origem. Consequentemente, ensinaram a seus descendentes nascidos no Brasil o polonês falado na Polônia no início do século 20. Quando visitou a Polôniamais de 70 anos depois da ida desses imigrantes para o Brasil, meu pai percebeu que falava um polonês antigo, cheio de palavras que tinham caído em desuso há muito tempo e não sabia que palavras usar em polonês pra se referir a certas coisas com as quais não tinha tido contato na infância, como por exemplo televisão, computador, etc. 

Os poloneses que interagiram com meu pai durante essa viagem acharam aquilo extraordinário, mas o caso dele não é único. No Brasil, muitas colônias de imigrantes, como aquela onde meu pai cresceu, preservam idiomas e tradições quase perdidos nos países de origem. Isso apesar da proibição de idiomas estrangeiros que prevaleceu no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, que acabou intimidando muitos dos falantes de outras línguas.

Agora, pesquisadores querem saber como esses idiomas e tradições ainda estão vivos quase dois séculos depois do início da imigração do século 19. 

Um artigo publicado nesse final de semana no jornal Folha de S. Paulo conta a história de uma colônia em Colombo, também no Paraná, onde algumas pessoas ainda falam o “vêneto”, dialeto da terra dos pais e avós que quase não existe mais nem na Itália. O artigo também menciona descendentes de alemães do oeste catarinense que usam “zepelin” como sinônimo de avião e “caminhong” para caminhão, algo que não existia na época da imigração. "É uma outra dinâmica: são pequenos municípios, a maioria de cunho rural, onde a mobilidade é muito pequena ... É praticamente aquela língua que chegou ao Brasil em 1824", diz Cristiane Horst, que estuda “hunsriqueano”, um dialeto germânico falado no Brasil. 

As colônias de imigrantes também preservam tradições que muitas vezes se perderam no país de origem. Por exemplo, o costume ucraniano da “pêssanka”, ovos decorados para comemorar a Páscoa, atualmente é mais forte no Brasil do que na Ucrânia. "Tudo foi proibido durante o regime soviético; quem mantinha era em segredo", diz Mirna Voloschen, da Sociedade Ucraniana do Brasil. Brasileiros que estiveram na Ucrânia depois que o país se tornou independente até ajudaram a revitalizar o costume do “pêssanka” lá.

Segundo o antropólogo Paulo Guérios, que estudou a imigração ucraniana no Paraná, os costumes e idiomas só permanecem se ainda fizerem sentido -- e é natural que se mesclem à cultura brasileira.


O artigo da Folha de S. Paulo pode ser acessado aqui



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